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sexta-feira, 24 de julho de 2009

Soneto do Amor Climático

Quando o clima se fecha aos olhos meus
A retina, fria, chora dilatada
E essa nuvem que flutua em minha órbita
Precipita uma paixão despudorada

Se inundo o olhar desfere um golpe
A outra face se vê desmascarada
Não adianta fingir que não prevê
Que no seu peito também chove uma fisgada

Se sobrevive a tudo isso o coração
A saudade pulsa tanto que magoa
Num compasso que jamais se desentoa

Mas se o tempo se refaz de ilusão
Arco-íris gera uma nova sensação
E o amor cai em nós que nem garoa.

.vernon bitu.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

O fruto, o feto e o fato

Há alguma semelhança
entre a semente e o feto
o florir da fruteira e a criança
e o vento que acalenta frio e quieto.

Água: leite que dá vida.
Leite: água pra ser forte.
Partindo da fruta amadurecida
à criança que adulta não tem sorte.

Se desejo a fruta ainda de vez
sou incauto nessa precipitação
sou lacaio da minha insensatez
ou condenado pela comiseração.

Porque agora que adulto me vejo
e a fruta é madura com certeza
ao invés de prazer eu sinto pejo
não sendo a hora de pô-la sobre a mesa.

Após a fase em quem o fruto está maduro
Se não atina ele pode apodrecer
Tenho uma bomba em minhas mãos que é meu futuro
Eu vim à vida e tenho medo de viver.

.vernon bitu.


Sol
Solidão
Saudade
Soluços
Solução!

.vernon bitu.

domingo, 12 de julho de 2009

Sem Verbo

Céu cinzento
Sem sol
Sem raios multicolores.
Minha casa sob essa mórbida paisagem.
A vida em busca de um significado
expressivo para sua existência.
Sonoridades ofegantes e dissonantes
como a saudade de um choro de paixão
em contraste com os ruídos das crianças
alegres com a queda d'água oriunda
da negras e pesadas nuvens.
Um caderno, um pena, um tinteiro.
Toda a melancolia da solitária companhia de ninguém.
Violão sem cordas,
boca sem voz.
Branco: tez vespertina;
Palidez do rosto.
O sarcasmo da noite chuvosa,
calabouço sem fim.
Ausência de rima no verso,
de alguém ao meu lado.
Só um poema vago com este.
Fotocópia fiel da triste realidade
da imagem desse quase nada.
Sem métrica
Sem música
Sem vida
Sem verbo.

.vernon bitu.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Desenho de infância II


De repente um sol azul
e uma cobra voando
na floresta celestial.
Um anjinho com as asas aparadas
tropeçando nas nuvens pelo chão.
Um cachorro verde
conversando com o gatinho roxo
que tocava aquela harpa
das cordinhas coloridas.
Tem, na rua, casinhas com uma porta
e janela na fachada
e do lado vem outra casa
e depois vem outra casa.
Doze casas, doze cores diferentes;
Doze lápis na caixinha;
Doze dúzias de doces sonhos
na imaginação da criança
que também tá na figura
brincando com o anjinho atrapalhado
com a bola, com o carrinho
com o pião que gira
e gira o universo infantil
que a gente que já teve infância
já não pode entender
nem consegue explicar.

.vernon bitu.

Coisa de Criança


Poder olhar pra trás
e ver a floresta no jardim
e a imensidão do quintal sem fim.
As cores da imaginação
as formas que não existem
um vagalume iluminando um futuro.
- Bem-te-vi, que bom te ver assim feliz
cantando o que é novo!
Tem de tudo nas gavetas da memória:
Bicho-papão, cuca, saci-pererê e mula-sem-cabeça
A vida paralela e o amigo invisível.
Se nada envelhecesse ninguém saberia
O tanto bom que é ser criança
E o quanto dói olhar pra trás
Quando pra frente não nos resta esperança.

Agora, o que será do triste jardim
e do quintal que encolheu
com a vida e com a força?
As formas descolorindo os sonhos,
brilhando sem graça.
O canto triste dos pássaros cegos:
Eles cantam de dor e de tristeza.
Até os medos são outros
mais reais e mais concretos.
A vida é única
e os amigos não existem.
Melhor seria se nada envelhescesse
E tudo fosse coisa de criança
Brincando na pintura de um gesto
E vivendo nos passos de uma dança.

.vernon bitu.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A poesia que não fiz

Hoje eu acordei pra fazer uma poesia.
Ela estava em mim
Queimando por dentro como azia
Cortando com as arestas das rimas
Agitando-me com o tempo dos verbos
Uma overdose silábica
Um mar de substantivos
E uma imensidão adjetivada.
Saí me batendo pelas paredes
Preso na vertigem literária
Ansioso pelo trem da inspiração.
Como os trens se atrasam!
Procurei perfeição em tudo
E me perdi entre temas distintos
Um absurdo de esquecimento.
Deixei cair uma vírgula de uma redondilha
Fui buscar exclamação em um alexandrino
Escapou-me dois quartetos
E deixei voar mais meia dúzia de estrofes.
Saí catando os pontos pelo chão
E encontrei um cê cedilha embaixo da cama
Da qual eu havia caído.
Acordei.
Acordei pra fazer uma poesia.
Mas não fiz.

.vernon bitu.